4º Capítulo
QUARTO CAPÍTULO
A fundação do Grêmio
Como dissemos no capítulo anterior, a família de Sebastião da Ressurreição Rainho e Prazeres da Encarnação freqüentavam regularmente o Centro Espírita Amor e Caridade Maria Madalena, na antiga sede em Marechal Hermes. Um de seus filhos, o menino de seus 12 ou 13 anos de idade – José Lourenço Rainho – atuava como médium da Casa.
Numa tarde, quando se preparavam para ir à reunião no Maria Madalena, uma pessoa amiga trouxe um enfermo à presença da família, pois sabiam da confiança que tinham no auxílio espiritual.
Não querendo faltar ao compromisso nem deixar de atender o enfermo, reuniram-se na pequena sala e fizeram uma prece em seu favor, recomendando que fosse com eles à reunião no Centro Espírita.
Numa dessas reuniões no Centro, a família foi avisada por um Amigo Espiritual que continuassem a fazer sempre o que fizeram para atender o enfermo: uma reunião de preces todas as semanas. A segunda-feira foi eleita para ser o dia da prece aos enfermos. Desde o aviso, em todas as segundas havia reunião no lar daquela família.
As reuniões da família continuaram a acontecer em algumas segundas-feiras. Mas como o que é programado espiritualmente tem força, as reuniões foram aumentando gradativamente a freqüência. Mais tarde, já com a direção daquele que já não era mais o “menino” José Lourenço Rainho, as reuniões de segunda-feira à tarde foram finalmente incorporadas no calendário da Casa.
Com o passar do tempo, a sala foi ficando pequena para o número de pessoas que compareciam. Resolveram, então, fazê-las em uma outra construção ao lado preparada para este fim. Providenciaram tábuas que colocaram sobre latas vazias; a partir daí, o trabalho passou a ser realizado também em outros dias da semana.
O jovem médium, juntamente com sua família, quase nada conhecia sobre o estudo da Doutrina Espírita. Seu conhecimento restringia-se ao estudo do Evangelho Segundo o Espiritismo, passes, água fluidificada e passes à distância com a equipe mediunizada (“incorporação”). Os sábados eram dedicados à “prática doutrinária”, onde recebiam a presença de espíritos desconhecedores (ignorantes), bem como mensagens dos Mentores Espirituais da Casa.
Um dia, José (o menino José) teve a visão de um frade baixinho, simples, com trajes franciscanos, conhecido com Antônio de Pádua, na Itália, e Antônio de Lisboa, em Portugal. Naquele momento, a inspiração: a Casa teria o nome daquela visão que presidia às reuniões.
A partir de então, a instituição passou a chamar-se Tenda Espírita Antônio de Pádua. Como o nome “Tenda” suscitava interpretações diversas, constantemente o poder policial “visitava” as reuniões para ver se havia algum caso de curandeirismo ou coisa parecida, o que era proibido por Lei. Numa dessas visitas, foi exigido que o Centro funcionasse dentro da legalidade, o que significava o fichamento dos seus dirigentes na Delegacia Policial. O registro foi feito, mudando-se o nome para o que conhecemos atualmente: Grêmio Espírita Antônio de Pádua, com diretoria, estatuto e quadro social.
Voltemos um pouco ao passado e recordemos que o sítio onde morava a família Rainho era bastante grande, com criação, pomar, horta e muito espaço para as festas juninas. Além disso, parentes começaram a construir suas casas no mesmo terreno, mas a entrada era por um portão só.
Essa característica manteve-se mesmo após a construção da nova sede do Grêmio, na frente da casa da família, local onde funciona até hoje. Toda vez que alguém entrava – e não era pouca gente morando naquele terreno – de dentro do Centro era possível se ver quem era e principalmente, ouvir o barulho do portão. Isso interferia, em parte, na atenção e concentração dos freqüentadores.
Após a partida da família para a Pátria Espiritual, já não eram somente os parentes que moravam no terreno, mas também os compradores das casas de alguns parentes. Devido ao grande movimento, levantou-se um muro separando o Grêmio das demais residências, além da construção de novas dependências, como o conhecemos hoje.
Convém lembrar que naqueles idos iniciais de funcionamento, quando a Doutrina Espírita estava sendo implantada (ou consolidada) no Brasil, os fenômenos aconteciam com mais freqüência do que hoje.
Isso acontecia por um motivo: o estudo naquela época era somente baseado no Evangelho Segundo o Espiritismo, pois entender e praticar os ensinos de Jesus era mais simples – e necessário – do que estudar profundamente os demais livros da codificação. Estes foram implantados com o tempo, porque àquela época os freqüentadores tinham menos escolaridade do que os de hoje, o que dificultava a assimilação de alguns conteúdos. Lembremos que não era fácil o acesso às salas de aula antigamente. Mas tudo correu como o esperado, como só acontece com aquilo que precisa mudar e ficar sem melindrar os freqüentadores.
Rigidez de comportamento. Ah, rigidez de comportamento... Este é um ponto que muito se discutiu e que se modificou, não sem a reclamação de alguns mais antigos – a maioria, hoje, já na Vida Espiritual. Inclusive, dentro do Centro, havia um aviso num local destacado onde se lia:
“PEDIMOS ÀS MOÇAS E SENHORAS QUE, AO VIREM PARA ESTA CASA, VENHAM DE SAIAS E NÃO DE CALÇA ESPORTE, EM RESPEITO AOS NOSSOS GUIAS ESPIRITUAIS”.
Era o ano de 1956, e estava entrando na moda o uso da calça esportiva. Estranho não se referir à vestimenta dos homens... Seria o “machismo” que imperava? Nada disso! É que o uso de camisetas sem manga e da bermuda era feita por baixo da roupa comum dos homens. Diferentemente de hoje, o clima naquela época era bem mais ameno. Quarenta graus? Nem perto!
Hoje se vê que uma senhora (ou senhorita) pode estar muito mais composta com uma calça comprida do que com certas saias – se é que se pode chamar de saia o que se vê por aí afora.
Assim foi (ou é) a história da Casa de Antônio de Pádua. Talvez com alguma fantasia da imaginação do autor quanto à transmigração da família Rainho para o Brasil; porém, com a certeza absoluta a partir da fundação da Casa que hoje amamos, tal qual aquela família – o Grêmio Espírita Antônio de Pádua (GEAP).
Outras histórias podem ser contadas em paralelo, como das famílias “Gonçalves”, “Rocha”, “Lacerda”, “Mendonça”, “Heggendorn”, “Veiga”, “Mayrinck”, “Oliveira” e tantas outras que à memória não chega, mas às quais muito deve esta bendita Casa que nos abriga. Muito também devemos às falanges espirituais, nossas eternas protetoras.
Quem conhecer ou mesmo quiser acrescentar algo mais ao descrito, o espaço estará sempre aberto. Deixamos de citar alguns nomes, tanto dos “vivos” quanto dos “mortos” que ajudaram e continuam nos ajudando, pois a obra é de todos e para todos, apoiados pelas bênçãos do Mestre Jesus.


